
O governo Lula pôs em vigor, nesta segunda-feira (4), o Programa Antes que Aconteça, apresentado como uma resposta à escalada da violência de gênero no país. A iniciativa, oficializada no Diário Oficial da União, busca estruturar uma política nacional mais integrada de prevenção, acolhimento e enfrentamento ao feminicídio, problema que segue atingindo sobretudo mulheres em situação de maior vulnerabilidade social. Mais do que ampliar serviços, o programa tenta responder a uma realidade marcada por desigualdades profundas. A violência contra a mulher, longe de ser episódica, está ligada a fatores como dependência econômica, racismo estrutural e ausência histórica de políticas públicas eficazes, elementos que o novo programa busca enfrentar de forma articulada entre União, estados e municípios. Entre as ações previstas está a criação das Salas Lilás, espaços de atendimento humanizado dentro de delegacias e órgãos do sistema de justiça. A proposta é garantir acolhimento digno às vítimas, rompendo com práticas institucionais muitas vezes marcadas por revitimização e negligência.
Ampliação da rede de proteção e autonomia econômica são centrais no enfrentamento à violência
O texto também prevê a ampliação das casas-abrigo para mulheres sob risco iminente, além da expansão de serviços itinerantes que levem atendimento psicológico, jurídico e social a territórios periféricos e regiões com menor presença do Estado, uma demanda histórica dos movimentos de mulheres. Outro eixo central é a promoção da autonomia econômica. O programa incorpora políticas de qualificação profissional e incentivo ao empreendedorismo como ferramentas para romper o ciclo de violência, reconhecendo que a dependência financeira ainda é um dos principais obstáculos para que muitas mulheres consigam sair de situações abusivas. Na área educacional, a proposta inclui ações nas escolas e formação de profissionais para enfrentar padrões culturais que naturalizam a desigualdade de gênero. A medida aponta para a necessidade de transformação estrutural, indo além de respostas emergenciais.
O cenário que motiva a iniciativa é grave: o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. Diante disso, o programa se apresenta como tentativa de antecipar a violência, ainda que sua efetividade dependa de financiamento contínuo, implementação nos territórios e pressão social para que saia do papel. O Antes que Aconteça se insere no esforço de estruturar políticas públicas integradas e permanentes de proteção às mulheres, reforçando a necessidade de ampliar a presença do Estado no enfrentamento à violência de gênero.